A Minha Pandemia

Daniel Ramalho é nosso convidado na primeira edição em novo formato da Revista EmDiabetes. Você lê na edição do mês e continua acompanhando as histórias aqui no site.

Por Daniel Ramalho

Se escrever sobre a pandemia já é algo desafiador, focar na minha maneira de lidar com o diabetes nesse período torna-se ainda mais complexo. Mas o que não é complexo em nossas vidas desde março de 2020, quando tudo começou?

Desde o início, minha família e eu aceitamos bem a ideia de nos isolarmos das pessoas durante um período. Na verdade o maior desafio deste momento foi conseguir que minha sogra, que mora em Buenos Aires – Argentina, conseguisse voltar ao seu país. Obviamente o leitor deve estar lembrando das piadas de sogras, tão típicas em nossa cultura. Podem ter certeza: pensei em todas elas também (risos), mas foi uma situação que se resolveu em uma semana ou menos, embora a tensão de suas idas e vindas infrutíferas do aeroporto aumentasse a angústia. Digo isso sem ironia, pois realmente era triste ver uma pessoa tentando voltar ao seu trabalho, sua casa e não conseguir.

A partir deste momento notei que passaríamos por muitas situações diferentes em nossas vidas e que, certamente, a glicemia exigiria uma atenção especial. Lembro que pensava-se em um isolamento de uns 3 ou 4 meses. Aceitei bem a ideia e procurei desenvolver os recursos mentais que precisaria para manter o controle emocional e glicêmico.

No início foi tudo ótimo, mas já no terceiro mês a pressão começou a bater forte para todos e comigo não foi diferente. Esse foi o período das inúmeras lives de artistas, shows em condomínios e outras formas de lazer indoor que começamos a adotar para aliviar o momento. Tal desafio emocional não passou despercebido por minhas glicemias e o controle, que já estava difícil realizar, ganhou um elemento complicador: de certa forma passei a descontar as frustrações e a imensa ansiedade, sem perceber, na alimentação. Meus atuais 7kg a mais do que em 13 de março de 2020 são a maior prova disso.

Entre o final de junho e a primeira metade de outubro, vivi o que considero o momento mais difícil da pandemia, pois a frustração de não ter me adaptado aos exercícios em casa dificultou ainda mais, tanto o controle glicêmico, quanto o emocional. Neste período passei a conviver com um poderoso inimigo das glicemias, cuja existência conhecia, mas não com tanta intimidade: a insônia.

Perdi a conta de quantas noites passei em claro ou dormindo pesado, sentindo uma ansiedade angustiante e que realmente me tirava as energias para levar bem o dia seguinte.

Escrevendo agora, sinto-me feliz e orgulhoso ao relembrar esse momento e por tê-lo superado. Sentia que, por mais que me esforçasse, minha glicemia nunca estava no lugar onde desejava, o que aumentava ainda mais a ansiedade e a sensação de impotência diante daquela situação.

Mais uma vez a música, os esportes, o trabalho e boas leituras me ajudaram. Aprendi  tocar ukulele durante a pandemia e, quando tudo complicou, funcionou como uma boa terapia, passando a relaxar um pouco mais. Também aproveitei o tempo para criar o Portal Hispano Cultural, um portal de cultura hispânica com o qual já sonhava, afinal sou professor de espanhol. Foi um processo gradativo, lento e considero que a superação só veio efetivamente em dezembro, após voltar a me exercitar fora de casa, cumprindo todas as medidas preventivas, além de retomar as leituras motivacionais e espirituais que sempre gostei.

As pedaladas e os textos positivos me deram o suporte final que precisava para voltar ao controle de minhas glicemias, como já fazia há anos. Foi como uma grande injeção de ânimo, um renascimento, voltar a acreditar que nada acontece por acaso e que as lições deste momento extremamente complicado foram aprendidas e transformadas em várias atitudes positivas, somente possíveis de serem colocadas em prática através da resiliência que desenvolvemos ao enfrentarmos nossos desafios.

Enfim, houve um tempo em que pensei que o diabetes seria minha maior provação em vida. Hoje acredito que ele é parte de nossa missão e que ainda há muitos desafios a serem superados, jamais subestimados. Com coragem e perseverança, com ou sem diabetes, podemos vencer todos eles.

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